IBM0288 - 2026.2
Suponha que \(Z_i\) satisfaça as duas condições para um instrumento válido:
Mínimos Quadrados em Dois Estágios:
Estágio 1: Regrida \(X_i\) em \(Z_i\) por MQO → obtenha \(\hat{X}_i = \hat{\pi}_0 + \hat{\pi}_1 Z_i\)
Estágio 2: Regrida \(Y_i\) em \(\hat{X}_i\) por MQO → obtenha \(\hat{\beta}_1^{MQ2E}\)
Os coeficientes do segundo estágio são os estimadores de MQ2E, mas os erros-padrão estão errados (usar comando único no R).
\[Y_i = \beta_0 + \beta_1 X_{1i} + \cdots + \beta_k X_{ki} + \beta_{k+1} W_{1i} + \cdots + \beta_{k+r} W_{ri} + u_i\]
\(E(u_i \mid W_{1i}, \ldots, W_{ri}) = 0\) — “os regressores exógenos são exógenos”
\((Y_i, X_{1i}, \ldots, X_{ki}, W_{1i}, \ldots, W_{ri}, Z_{1i}, \ldots, Z_{mi})\) são i.i.d.
Os X’s, W’s, Z’s e Y têm momentos de 4ª ordem não nulos e finitos.
Os instrumentos \((Z_{1i}, \ldots, Z_{mi})\) são válidos.
Sob as hipóteses 1–4, o MQ2E e sua estatística t são normalmente distribuídos em amostras grandes.
Angrist (1990): primeiro uso de aleatorização como instrumento
- Efeito do serviço militar no Vietnã sobre a renda
- Serviço voluntário (em tempos normais) implica seleção e efeitos heterogêneos
- Instrumento: número sorteado na loteria do alistamento (randomização física)Na época, o uso de IV era descuidado: alguns artigos nem diziam qual era o instrumento
Para Angrist, o instrumento é um mecanismo real de atribuição ao tratamento, não uma formalidade estatística
O MQ2E não cria variação exógena! Ele só aproveita a aleatoriedade que já existe no mundo (experimento natural).
O trabalho do pesquisador é encontrar essa aleatoriedade e usá-la para responder perguntas relevantes para políticas públicas
Heckman (1990): “identificação no infinito”
Imbens & Angrist (1994): então, o que o IV estima?
Efeito individual: \(\delta_i = Y_i^1 - Y_i^0\)
Status de tratamento potencial: \(D_i^1\) (se \(Z_i=1\)) e \(D_i^0\) (se \(Z_i=0\))
\(D_i = D_i^0 + (D_i^1 - D_i^0)Z_i\)
Compliers (\(D^1=1, D^0=0\)): serviram por causa do sorteio
Always-takers (\(D^1=D^0=1\)): patriotas, servem de qualquer jeito
Never-takers (\(D^1=D^0=0\)): isentos por motivo de saúde
Defiers (\(D^1=0, D^0=1\)): descartados pela monotonicidade
\[ \delta_{IV} = \frac{E[Y_i(D_i^1,1) - Y_i(D_i^0,0)]}{E[D_i^1 - D_i^0]} = E\big[Y_i^1 - Y_i^0 \mid D_i^1 - D_i^0 = 1\big] \]
IV estima o efeito médio para os compliers: quem muda de status por causa de \(Z\)
Efeito Local: sem hipóteses extras, nada diz sobre always-takers ou never-takers
Com efeitos homogêneos, LATE = ATE; com efeitos heterogêneos, em geral LATE \(\neq\) ATE
Se o LATE é o parâmetro de política relevante depende da pergunta que se quer responder
Ref: Seção 3.1 de Angrist, J. D., Pischke, J.-S. Mastering metrics: the path from cause to effect.
KIPP (Knowledge Is Power Program): rede de escolas públicas charter nos EUA
Escolas charter são públicas, com maior autonomia curricular e de gestão; muitas seguem o modelo No Excuses (mais tempo de aula, disciplina, foco em leitura/matemática).
Questão empírica: frequentar uma escola charter melhora o desempenho?
Desafio de identificação: autosseleção de famílias/alunos → comparação simples entre charter e escolas tradicionais é viesada.
Em Massachusetts, quando há excesso de demanda, por lei as vagas charter são sorteadas.
A loteria cria variação aleatória no acesso à charter: exatamente o que precisamos!
O sorteio é um instrumento para matrícula em charter!
Objetivo: estimar o efeito causal de estudar em uma charter sobre aprendizado.
Colunas (1), (2) e (4) reportam as médias. A coluna (3) apresenta as diferenças entre os sorteados e os não sorteados. Esses são coeficientes de regressões que controlam para grupos de risco, ou seja, variáveis dummy para ano e série de inscrição e a presença de um irmão candidato. A coluna (5) apresenta as diferenças entre os alunos da KIPP e os candidatos que não frequentaram a KIPP. Os erros-padrão são reportados entre parênteses.
Condições para a validade do instrumento:
Primeiro estágio: \(Z_i\) tem efeito causal sobre \(D_i\)
Independência: \(Z_i\) é como se fosse aleatório — não correlacionado com variáveis omitidas
Restrição de exclusão: \(Z_i\) afeta \(Y_i\) somente através de \(D_i\)
Observação: Os dois últimos pontos são equivalentes à condição de exogeneidade da aula anterior.
| Condição | No estudo KIPP | Verificável? |
|---|---|---|
| Primeiro estágio | Oferta aumenta frequência em 74 p.p. | ✓ Sim |
| Independência | Loteria aleatória → balanceamento | ✓ Sim |
| Restrição de exclusão | Oferta só melhora notas via frequência | ✗ Não |
Colunas (1), (2) e (4) reportam as médias. A coluna (3) apresenta as diferenças entre os sorteados e os não sorteados. Esses são coeficientes de regressões que controlam para grupos de risco, ou seja, variáveis dummy para ano e série de inscrição e a presença de um irmão candidato. A coluna (5) apresenta as diferenças entre os alunos da KIPP e os candidatos que não frequentaram a KIPP. Os erros-padrão são reportados entre parênteses.
O efeito local médio do tratamento (LATE) é definido como:
\[\lambda = \frac{\rho}{\phi} = \frac{E[Y_i \mid Z_i=1] - E[Y_i \mid Z_i=0]}{E[D_i \mid Z_i=1] - E[D_i \mid Z_i=0]}\]
Numerador (\(\rho\)): efeito da oferta sobre os resultados (forma reduzida)
Denominador (\(\phi\)): efeito da oferta sobre o tratamento (primeiro estágio)
Usando dados da tabela anterior:
\[\lambda = \frac{\rho}{\phi} = \frac{0{,}355}{0{,}741} \approx \mathbf{0{,}48\sigma}\]
Um ganho de quase meio desvio-padrão em matemática em um ano letivo!

LATE = efeito para os compliers
O instrumento não tem poder de mudar o tratamento de never-takers nem always-takers. O LATE captura o efeito causal apenas para os compliers — aqueles cuja decisão de frequentar a KIPP é determinada pela loteria.
LATE = \(E[Y_{1i} - Y_{0i} \mid C_i = 1]\): efeito para os compliers
TOT (Treatment effect on the Treated) = \(E[Y_{1i} - Y_{0i} \mid D_i = 1]\): efeito para todos os tratados (compliers + always-takers)
LATE \(\neq\) TOT
O efeito médio local do tratamento e o efeito do tratamento sobre os tratados são, em geral, diferentes, pois os tratados incluem always-takers, que podem ter efeitos diferentes dos compliers sem hipóteses adicionais.
O LATE estimado para a KIPP Lynn pode não se generalizar para:
Dica
A relevância de um LATE depende de quem são os compliers e se eles representam bem a população de interesse para políticas públicas.
Ref: Seção 3.3 de Angrist, J. D., Pischke, J.-S. Mastering metrics: the path from cause to effect.
Questão: ter mais irmãos prejudica a educação dos filhos? (trade-off quantidade-qualidade)
Teoria de Becker: pais com menos filhos investem mais em cada um (saúde, educação)
Correlação MQO: cada filho adicional reduz ~0,25 ano de escolaridade do primogênito
Famílias maiores diferem das menores em muitas características não observáveis
Mães com mais filhos tendem a ter menos escolaridade
Filhos de mães menos escolarizadas tendem a ter menos escolaridade
Viés de seleção: a correlação negativa pode não refletir causalidade
Experimento ideal: sortear aleatoriamente bebês extras para famílias com um filho já existente.
Gêmeos no 2º nascimento: \(Z_i = 1\) se a segunda gestação for de gêmeos
Gêmeos representam um choque exógeno no tamanho da família
Aumenta o número médio de filhos em ~0,32
Primeiro estágio sem controles: 0,320; com controles: 0,437
Composição de sexo dos dois primeiros filhos: \(W_i = 1\) se os dois primeiros filhos são do mesmo sexo
Pais preferem ter pelo menos um casal
O sexo do recém-nascido é essencialmente aleatório!
Primeiro estágio sem controles: 0,079; com controles: 0,073
Atenção: No livro de Stock e Watson (aulas passadas), \(W\) é usado para representar as variáveis de controle. Neste exemplo do livro de Angrist e Pischke, \(W\) é usado para diferenciar os dois instrumentos.
Instrumento gêmeos:
Primogênitos criados em famílias com gêmeos não têm menor escolaridade do que aqueles em famílias com apenas um irmão.
Forma reduzida ≈ 0
Instrumento filhos do mesmo sexo:
A escolaridade média dos primogênitos é praticamente igual entre famílias com filhos de mesmo sexo e de sexos diferentes (ambas ≈ 12,6 anos).
Forma reduzida ≈ 0
LATE = 0
Se a forma reduzida é zero, o LATE também é zero: \(\lambda = \rho/\phi \approx 0/\phi = 0\).
Conclusão: Nenhuma evidência de trade-off quantidade-qualidade!
O método de Mínimos Quadrados em Dois Estágios (MQ2E) generaliza o método de VI em duas dimensões:
Combina múltiplos instrumentos eficientemente
Incorpora covariáveis de controle
Com um instrumento (\(Z_i\)) e controle (\(A_i\) = idade da mãe):
Forma reduzida: \(Y_i = \alpha_0 + \rho Z_i + \gamma_0 A_i + e_{0i}\)
Primeiro estágio: \(D_i = \alpha_1 + \phi Z_i + \gamma_1 A_i + e_{1i}\)
Valores preditos: \(\hat{D}_i = \alpha_1 + \hat{\phi} Z_i + \hat{\gamma}_1 A_i\)
Segundo estágio: \(Y_i = \alpha_2 + \lambda_{MQ2E} \hat{D}_i + \gamma_2 A_i + e_{2i}\)
Resultado: \(\lambda_{MQ2E} = \hat{\rho}/\hat{\phi}\): o mesmo LATE, agora com controles!
Com dois instrumentos (\(Z_i\) gêmeos, \(W_i\) filhos do mesmo sexo) e controles (\(A_i\) idade da mãe, \(B_i\) primogênito masculino):
Primeiro estágio:
\[D_i = \alpha_1 + \phi_t Z_i + \phi_s W_i + \gamma_1 A_i + \delta_1 B_i + e_{1i}\]
Segundo estágio:
\[Y_i = \alpha_2 + \lambda_{MQ2E} \hat{D}_i + \gamma_2 A_i + \delta_2 B_i + e_{2i}\]
O MQ2E com dois instrumentos produz uma média ponderada dos LATEs gerados por cada instrumento individualmente.
Combinar instrumentos aumenta a precisão (reduz o erro-padrão)
O primeiro estágio dos gêmeos aumenta com controles: gêmeos são mais comuns em mães mais velhas, que teriam menos filhos
O primeiro estágio do instrumento filhos do mesmo sexo é estável com ou sem controles: sexo do bebê é verdadeiramente aleatório
MQO: forte correlação negativa (−0,145) — viés de seleção
MQ2E: estimativas próximas de zero, não significativas — nenhuma evidência de trade-off quantidade-qualidade
O −0,145 do MQO está fora do intervalo de confiança do MQ2E → seleção explica a correlação

O uso de celulares e computadores durante as aulas expositivas não é permitido!