
IBM0288 - 2026.1
Queremos saber: a política, lei ou intervenção causou uma mudança no resultado?
O problema: nunca observamos a mesma unidade no estado tratado e no estado não-tratado simultaneamente!
\[Y_i = D_i \cdot Y_i(1) + (1 - D_i) \cdot Y_i(0)\]
onde \(Y_i\) é o resultado observado; \(Y_i(1)\) é o resultado potencial com tratamento e \(Y_i(0)\) é o resultado potencial sem tratamento.
| \(Y_i(1)\) | \(Y_i(0)\) | |
|---|---|---|
| \(D_i = 1\) (tratado) | observado | ✗ contrafactual |
| \(D_i = 0\) (controle) | ✗ contrafactual | observado |
O problema do contrafactual
O efeito causal individual é \(Y_i(1) - Y_i(0)\). O contrafactual \(Y_i(0)\) nunca é observado para os tratados. Portanto, precisamos estimá-lo com uma estratégia de identificação.
A ideia-chave do DD: usar a evolução do grupo de controle ao longo do tempo como para estimar o contrafactual do grupo tratado.

\[\widehat{ATT} = \underbrace{(\bar{Y}_{trat,\,depois} - \bar{Y}_{trat,\,antes})}_{\text{mudança no grupo tratado}} - \underbrace{(\bar{Y}_{ctrl,\,depois} - \bar{Y}_{ctrl,\,antes})}_{\text{mudança no grupo de controle}}\]
Pergunta causal: a expansão do Medicaid via ACA (Affordable Care Act) reduziu a mortalidade adulta nos EUA?
Contexto:
Expandiu a elegibilidade do Medicaid para adultos de baixa renda em diversos estados;
Objetivo principal: reduzir o número de pessoas sem seguro de saúde;
Oferece cobertura mais acessível por meio de subsídios e programas públicos;
Proíbe práticas como negar cobertura por condições pré-existentes.
A expansão pelos estados foi opcional. Estados escolheram se e quando expandir!
| Ano de expansão | Estados | % dos condados |
|---|---|---|
| 2014 | AR, AZ, CA, CO, CT, … | 36% |
| 2015–2019 | AK, IN, PA, LA, MT, … | 15% |
| Nunca | AL, FL, GA, TX, WY, … | 31% |
Por que não basta comparar os dois grupos (controle e tratamento)?
Estados que decidiram expandir fizeram essa escolha por razões econômicas e políticas. Assim, uma comparação simples confundiria o efeito do Medicaid com as diferenças pré-existentes entre os grupos (efeito seleção).
O caso mais simples: 2 grupos × 2 períodos
| 2013 (antes) | 2014 (depois) | |
|---|---|---|
| Expansão 2014 (\(D_i = 1\)) | 978 condados | tratados |
| Não-expansão (\(D_i = 0\)) | 1.222 condados | controle |
Resultado: \(Y_{i,t}\) = taxa de mortalidade adulta (20–64) por 100.000 habitantes
Resultado potencial: \(Y_{i,t}(0)\) = mortalidade que teria ocorrido sem a expansão do Medicaid
Resultado potencial: \(Y_{i,t}(1)\) = mortalidade que teria ocorrido com a expansão do Medicaid
O que queremos estimar é o efeito médio do tratamento sobre os tratados:
\[ATT = E[\,Y_{i,2}(1) - Y_{i,2}(0) \mid D_i = 1\,]\]
O que cada parte significa:
Hipótese de não-antecipação: antes do tratamento, os grupos tratados ainda não agem sobre a expansão futura:
\[Y_{i,1}(1) = Y_{i,1}(0) \quad \forall \text{ unidade tratada}\]
→ Em 2013, os condados que expandiram se comportam como se não fossem expandir.
Na ausência do tratamento, a mudança média no resultado teria sido a mesma nos dois grupos:
\[E[Y_{i,2}(0) - Y_{i,1}(0) \mid D_i = 1] = E[Y_{i,2}(0) - Y_{i,1}(0) \mid D_i = 0]\]
O que isso significa na prática?
Se o Medicaid não tivesse expandido, a mortalidade no grupo de tratamento teria crescido no mesmo ritmo que no grupo de controle.
Não exige que os níveis sejam iguais! Apenas que as tendências sejam paralelas!
Sob a hipótese de tendências paralelas, podemos identificar o ATT a partir de médias observáveis:
Passo 1: O contrafactual dos tratados é: \[E[Y_{i,2}(0) \mid D_i=1] = \underbrace{E[Y_{i,1} \mid D_i=1]}_{\text{média antes (tratados)}} + \underbrace{\big(E[Y_{i,2} \mid D_i=0] - E[Y_{i,1} \mid D_i=0]\big)}_{\text{tendência do controle}}\]
Passo 2: Substituindo na definição do ATT:
\[ATT = \big(E[Y_{i,2}|D_i=1] - E[Y_{i,1}|D_i=1]\big) - \big(E[Y_{i,2}|D_i=0] - E[Y_{i,1}|D_i=0]\big)\]
→ DiD = mudança nos tratados menos mudança nos controles.
A hipótese de tendências paralelas envolve \(Y_{i,t}(0)\) não-observado no período pós-tratamento! Não há teste definitivo!
O que podemos fazer:
Balanceamento de covariáveis: verificar se os grupos diferem em variáveis que determinam tendências do resultado
Pré-tendências: verificar se as tendências eram paralelas antes do tratamento
Análise de sensibilidade: quantificar o quão grande precisaria ser uma violação da hipótese para reverter os resultados
Pré-tendências ≠ testar hipótese de tendências paralelas
Tendências paralelas antes do tratamento apoiam a hipótese de tendências paralelas, mas não a provam! A hipótese de tendências paralelas é uma hipótese sobre comportamento do contrafactual não observado após tratamento.
Comparação dos grupos de controle e tratamento em 2013 (antes do tratamento):
| Variável | Controle | Tratados | Dif. Normalizada |
|---|---|---|---|
| % Branca | 81,6 | 90,5 | 0,59 ⚠ |
| % Hispânica | 9,6 | 8,2 | −0,10 |
| Taxa de desemprego | 7,6 | 8,0 | 0,16 |
| Taxa de pobreza | 19,3 | 16,5 | −0,42 ⚠ |
| Renda mediana ($ mil) | 43,0 | 48,0 | 0,43 ⚠ |
Diferença normalizada acima de 0,25 em módulo indica desbalanceamento relevante.
Grupos diferem em raça, pobreza e renda: variáveis que provavelmente afetam tendências de mortalidade. Isso coloca em dúvida a hipótese de tendências paralelas incondicional.
Na ausência do tratamento, a evolução média do resultado é a mesma entre tratados e não tratados dentro de cada estrato de covariável \(X_i\).
\[\small E[\Delta Y_{t}(0) \mid X_i, D_i=1] = E[\Delta Y_{t}(0) \mid X_i, D_i=0]\]
A hipótese de identificação é de tendências paralelas condiconais!
O caminho natural seria incluir covariáveis na regressão de efeito fixo:
\[Y_{it} = \theta_t + \eta_i + \beta_{\text{treat}} D_{it} + X_{it}'\beta_{\text{covs}} + e_{it}\]
A estimação TWFE de DD com covariáveis possui dois problemas:
Controle errado: controlar pela pobreza anual (\(X_{it}\)) equivale a controlar pela variação da pobreza em TWFE, ou seja, áreas pobres ≠ áreas ficando mais pobres.
Controles ruins: se \(X_{it}\) for afetado pelo próprio tratamento (ex: Medicaid pode reduzir pobreza), incluí-lo contamina a estimativa do efeito causal.
Conclusão: mesmo que a hipótese de tendências paralelas condicionais seja válida, \(\hat{\beta}_{\text{treat}}\) da regressão TWFE não recupera o ATT.
A solução é estimar o ATT diretamente por regressão ajustada, IPW ou métodos duplamente robustos.
DD com covariáveis
Não iremos cobrir esses estimadores devido ao tempo e complexidade. Porém, caso seja necessário utilizar covariáveis em seu DD no futuro, é importante entender como esses estimadores funcionam - ver seção 4.4 de Baker et al (2016). Implementá-los no R é super simples pois os pacotes já trazem rotinas para isso.
O termo “event study” refere-se à estimação e à apresentação de efeitos ao longo de diferentes períodos de tempo antes e depois do tratamento.
Um desenho com um grupo de tratamento tratado no mesmo \(t\) e múltiplos períodos de tempo (2 × T) é o caso mais simples para discutir estudos de evento.
Com múltiplos períodos, estimamos o ATT para cada período \(t\), sempre usando o período imediatamente anterior ao tratamento como base (\(g\)):
\[\widehat{ATT}(t) = \big(\bar{Y}_{D=1,\,t} - \bar{Y}_{D=1,\,g-1}\big) - \big(\bar{Y}_{D=0,\,t} - \bar{Y}_{D=0,\,g-1}\big)\]
Uma forma equivalente de obter todos os ATT(t): estimar uma regressão TWFE com efeitos fixos de tempo, efeitos fixos das unidades e um conjunto de interações entre a dummy do grupo tratado e as dummies de tempo.
A omissão da interação de tratamento para t=g−1 evita multicolinearidade e fixa g−1 como o período de referência para todas as estimativas de \(\beta\)’s.
\[ Y_{i,t} = \theta_t + \eta_i + \sum_{k=1}^{g-2} \beta_k \left( \mathbf{1}\{G_i = g\} \cdot \mathbf{1}\{t = k\} \right) + \sum_{k=g}^{T} \beta_k \left( \mathbf{1}\{G_i = g\} \cdot \mathbf{1}\{t = k\} \right)+ \varepsilon_{i,t}\]
Event Study
Event Study (DD 2xT) nada mais é do que uma série do caso DD 2x2 mais simples, agora aplicado para cada \(t\) em uma janela de tempo ao redor do tratamento.
Em Event Study a hipótese de tendências paralelas é mais forte: tendências paralelas tem que valer para todo período após o tratamento
Para os períodos pré-tratamento (\(t < g\)): sob hipótese de não-antecipação, \(ATT(t)\) deve ser zero
Para os períodos pós-tratamento (\(t \geq g\)): estimamos o efeito causal ao longo do tempo
No Medicaid, os estados expandiram em anos diferentes — isso é chamado de staggered adoption (adoção escalonada):

→ Cada grupo de tratamento define seus próprios parâmetros \(ATT(g, t)\) — efeito para o grupo \(g\) no período \(t\).
A regressão TWFE convencional estima um coeficiente único:
\[Y_{i,t} = \theta_t + \eta_i + \beta^{twfe} D_{i,t} + e_{i,t}\]
O problema fundamental: com adoção escalonada, o TWFE usa grupos já tratados como controle uns dos outros.
→ Para estimar o efeito do grupo tratado em 2015, o TWFE compara com os condados tratados em 2014. Mas esses já foram afetados pelo Medicaid!
Consequência: com dois grupos de tratamento (\(G_i = 1\) e \(G_i = 2\)) e nunca-tratados:
\[\beta^{twfe} = ATT(2,2) + \underbrace{ATT(1,1) \times w_1 - ATT(1,2) \times w_1}_{\text{usa grupo 1 como controle para grupo 2}}\]
Se o efeito cresce com o tempo (\(ATT(1,2) > ATT(1,1)\)), \(ATT(1,2)\) entra com peso negativo!
\(w_1\): é o percentual de unidades tratadas
O problema do TWFE com adoção escalonada
Mesmo que todos os efeitos \(ATT(g,t)\) sejam positivos, o \(\beta^{twfe}\) pode ser negativo.
Goodman-Bacon (2021) e de Chaisemartin & D’Haultfœuille (2020) demonstraram isso formalmente.
Por que isso acontece?
O TWFE compara grupos tratados com outros grupos tratados em momentos em que ambos já foram afetados pelo tratamento. A variação usada para identificação não é mais o experimento que queremos.
A solução: estimar cada \(ATT(g,t)\) como um DiD 2×2 separado, usando apenas grupos não-tratados (ou ainda-não-tratados) como controle, e depois agregar.
Passo 1 — Estimar cada bloco 2×2:
\[\widehat{ATT}(g, t) = \big(\bar{Y}_{G_i=g,\,t} - \bar{Y}_{G_i=g,\,g-1}\big) - \big(\bar{Y}_{ctrl,\,t} - \bar{Y}_{ctrl,\,g-1}\big)\]
onde o grupo de controle são os ainda-não-tratados até o período \(t\).
Passo 2 — Agregar com pesos:
\[\widehat{ATT}_{agg} = \sum_{g,\,t \geq g} w_{g,t} \cdot \widehat{ATT}(g,t), \quad \sum w_{g,t} = 1\]
→ Pesos \(w_{g,t}\) proporcionais ao tamanho do grupo \(g\) entre os tratados.
Implementação em R
O pacote did (Callaway & Sant’Anna, 2021) implementa exatamente esse procedimento: att_gt() para os blocos e aggte() para a agregação.
Defina o parâmetro-alvo — qual ATT você quer estimar? Para quais grupos e períodos?
Enuncie a hipótese de identificação — qual forma de tendências paralelas você está impondo? Justifique teoricamente.
Avalie a plausibilidade — balanceamento de covariáveis e pré-tendências no estudo de evento.
Escolha o estimador adequado — 2×2 simples, estudo de evento, ou design com adoção escalonada.
Estime e faça inferência — erros-padrão clusterizados no nível de tratamento.
Análise de sensibilidade — quão robusto é o resultado a violações plausíveis das hipóteses?

O uso de celulares e computadores durante as aulas expositivas não é permitido!