IBM0288 - 2026.2
Modelos não fazem mágica: O MQ2E não cria variação exógena! Ele só aproveita a aleatoriedade que já existe no mundo (experimento natural):
O trabalho do pesquisador é encontrar essa aleatoriedade e usá-la para responder perguntas relevantes para políticas públicas
IV só identifica o ATE se houver efeitos tratamentos individuais homogêneos ou instrumento levar quase toda a população para dentro ou para fora do tratamento.
Com efeitos heterogêneos, há quatro grupos:
Compliers (\(D^1=1, D^0=0\)): seguem a regra do sorteio
Always-takers (\(D^1=D^0=1\)): sempre tratados independentemente do sorteio
Never-takers (\(D^1=D^0=0\)): nunca tratados independentemente do sorteio
Defiers (\(D^1=0, D^0=1\)): tratados quando perdem sorteio; não tratados quando ganham sorteio.
\[ \delta_{IV} = \frac{E[Y_i(D_i^1,1) - Y_i(D_i^0,0)]}{E[D_i^1 - D_i^0]} = E\big[Y_i^1 - Y_i^0 \mid D_i^1 - D_i^0 = 1\big] \]
IV estima o efeito médio para os compliers: quem muda de status por causa de \(Z\)
Efeito Local: sem hipóteses extras, nada diz sobre always-takers ou never-takers
Com efeitos homogêneos, LATE = ATE; com efeitos heterogêneos, em geral LATE \(\neq\) ATE
Se o LATE é o parâmetro de política relevante depende da pergunta que se quer responder
Nome vem de Bartik (1991), mas a ideia aparece já em Perloff (1957) e Freeman (1980)
Problema: oferta e demanda determinam juntas os resultados do mercado de trabalho, então o MQO é viesado
Exemplo: efeito de fluxos de imigração \(I_{lt}\) sobre o salário de nativos \[Y_{lt} = \alpha + \delta I_{lt} + \rho X_{lt} + \varepsilon_{lt}\]
Instrumento: participações iniciais (shares) interagidas com choques nacionais (shifts) \[B_{lt} = \sum_k z_{kl}^{0}\, m_{kt}\]
Estimação: MQ2E com \(B_{lt}\) como instrumento para \(I_{lt}\)
Escolha a visão com base num argumento a priori (teoria, contexto, conhecimento institucional) para a aplicação.
Faça testes de tagnósticos:
Refs:
Autor, D., Dorn, D. e Hanson, G. (2013). “The China Syndrome: Local Labor Market Effects of Import Competition in the United States.” American Economic Review, 103(6): 2121–2168.
Goldsmith-Pinkham, P., Sorkin, I. e Swift, H. (2020). “Bartik Instruments: What, When, Why, and How.” American Economic Review, 110(8): 2586–2624.
O que aconteceu?
Entre 1991 e 2007, as importações dos EUA da China cresceram 12,5 vezes — de US$ 26 bi para US$ 330 bi
No mesmo período, o emprego manufatureiro caiu de 12,6% para 8,4% da população adulta
A pergunta causal: As importações chinesas causaram a queda no emprego manufatureiro americano?
Não é óbvio! Outras explicações para o declínio do emprego manufatureiro:
Automação e progresso tecnológico
Mudança na composição da demanda americana
Outros parceiros comerciais (México, Índia)
Ideia central: em vez de olhar para os EUA como um todo, analisar como cada região foi afetada de forma diferente.
Unidade de análise: Commuting Zones (equivalente à microrregião no Brasil).
722 áreas que cobrem todo o território americano
Agrupam municípios com forte integração no mercado de trabalho local
Variam muito em sua estrutura industrial
A intuição: Regiões especializadas em indústrias que competem com a China devem ser mais afetadas pelo choque chinês.
Para cada commuting zone \(i\) e período \(t\), podemos definir:
\[\Delta IPW_{uit} = \sum_j \frac{L_{ijt}}{L_{ujt}} \cdot \frac{\Delta M_{ucjt}}{L_{it}}\]
onde:
\(\frac{L_{ijt}}{L_{ujt}}\): participação da ZC \(i\) no emprego nacional do setor \(j\)
\(\Delta M_{ucjt}\): crescimento das importações americanas da China no setor \(j\)
\(L_{it}\): emprego total na ZC \(i\)
\(M_{uc}\): significa importações dos EUA vindas da China
\(\Delta IPW_{uit}\): variação na exposição às importações é uma média ponderada dos choques de importações setoriais, onde os pesos são dados pela composição setorial do emprego.
\[\Delta L^m_{it} = \gamma_t + \beta_1 \,\Delta IPW_{uit} + \mathbf{X}'_{it}\beta_2 + e_{it}\]
\(\Delta L^m_{it}\): mudança decenal no emprego manufatureiro como proporção da pop. adulta
\(\beta_1\): efeito causal de interesse: como a exposição às importações afeta o emprego
O problema de simultaneidade: importações americanas da China (\(\Delta M_{ucjt}\)) refletem:
Choque de oferta da China (competição chinesa); ou
Choque de demanda dos EUA (americanos querem mais produtos chineses)
Solução: MQ2E, mas é necessário um instrumento \(Z_{it}\) que atenda a:
Relevância: \(Z_{it}\) prediz \(\Delta IPW_{uit}\) (primeiro estágio forte)
Exclusão: \(Z_{it}\) afeta \(\Delta L^m_{it}\) somente através de \(\Delta IPW_{uit}\)
O instrumento de Bartik combina dois ingredientes:
Pesos (shares): Composição industrial local no período inicial
Quanto cada região depende de cada setor
Predeterminado: reflete história local, não decisões recentes
Varia entre regiões
Choques (shifts):
Variação nacional (ou global) por setor
Dinâmica independe da decisão de cada região específica
Chega a cada região com intensidade diferente, dependendo da especialização local
\[\text{Instrumento}_i = \sum_j \underbrace{\text{peso}_{ij}}_{\text{local, predeterminado}} \times \underbrace{\text{choque}_j}_{\text{global/nacional, exógeno}}\]
Construção do instrumento Bartik
O exemplo usa pesos baseados na estrutura setorial do emprego, pois é o caso mais comum na literatura e a forma como o instrumento foi originalmente desenvolvido. Porém, qualquer estrutura de média ponderada pode ser utilizada para construir um instrumento Bartik.
\[\Delta IPW_{oit} = \sum_j \frac{L_{ij,t-1}}{L_{uj,t-1}} \cdot \frac{\Delta M_{ocjt}}{L_{i,t-1}}\]
Dois ajustes em relação à medida de exposição:
Pesos defasados: evita que o emprego contemporâneo, afetado pelo nível de M atual, influencie o instrumento
Importações de outros países (\(M_{ocjt}\)): isola o componente de oferta chinesa
Intuição:
Se a China está expandindo sua capacidade produtiva (choque de oferta), ela exporta mais para todos os países ricos e não apenas para os EUA!
O coeficiente preferido dos autores é \(\hat{\beta}_1 \approx -0{,}60\).
O que significa: um aumento de US$ 1.000 por trabalhador na exposição às importações chinesas por década reduz o emprego manufatureiro em 0,60 pontos percentuais
Exposição cresceu: ~US$ 1.140/trabalhador nos anos 1990 e ~US$ 1.839/trabalhador nos anos 2000
Impacto estimado:
Para contexto: o emprego manufatureiro/pop. caiu 2,07 p.p. nos anos 1990 e 2,00 p.p. nos anos 2000
A competição chinesa explica ~33% da queda nos anos 1990, ~55% nos anos 2000 e ~44% da queda total.
Além do emprego manufatureiro, as regiões mais expostas às importações chinesas também experimentaram:
Importância do instrumento
O instrumento de Bartik foi essencial para separar o efeito causal da competição chinesa de outros fatores — como automação e mudança de demanda — que poderiam explicar a desindustrialização.
Visualize os resultados em um gráfico dinâmico no link: chinashock.info
Ameaça 1: Choques de demanda correlacionados
Se países ricos têm booms de demanda comuns (ex.: boom imobiliário dos anos 2000), as importações de todos sobem juntas e não apenas por oferta chinesa.
Resposta dos autores: resultados robustos ao excluir setores suspeitos (aço, vidro, cimento) e ao usar estratégia alternativa baseada no modelo de gravidade do comércio.
Ameaça 2: Pré-tendências nos “pesos”
Se os pesos (composição industrial regional) refletem declínio já em curso, a hipótese de exogeneidade é violada.
Resposta dos autores (teste de falsificação): regridem mudanças passadas no emprego (anos 1970–1990) sobre a exposição futura às importações chinesas. Resultado: correlação fraca e ausência de pré-tendência.
Goldsmith-Pinkham, Sorkin e Swift (2020) mostram que o instrumento de Bartik é equivalente a uma combinação ponderada de instrumentos, um por setor.
A validade depende crucialmente da exogeneidade dos pesos: a composição industrial inicial não pode refletir tendências que afetariam independentemente os resultados futuros
No artigo, os pesos são as participações de emprego de 10 anos atrás: plausível porque a especialização industrial regional muda lentamente
Interpretação do LATE: o instrumento identifica o efeito médio ponderado pelos pesos setoriais de cada região.

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