Diferenças em diferenças

IBM0288 - 2026.2

Prof. Raphael Gouvea

John Snow e a cólera

  • Várias ondas de cólera em Londres no início e meados do século XIX. A comunidade médica atribuía a doença ao miasma: venenos presentes no ar fétido (“ar ruim”)

  • John Snow acreditava que a cólera era causada por um organismo vivo que entrava no corpo pela comida e bebida, passava pelo sistema digestivo e voltava à água do Tâmisa pelos dejetos, causando novas epidemias.

  • Londres aprovou uma lei exigindo que as companhias de água movessem os canos de captação rio acima, acima do centro da cidade, mas nem todas cumpriram.

  • Experimento natural: a companhia Lambeth moveu o cano entre 1849 e 1854; a Southwark e Vauxhall atrasaram.

Saneamento em Londres, 1854

Intuição: contexto

  • Tratamento: mudança do cano de captação para montante, ou seja, água mais limpa
  • Resultado: mortalidade média por cólera (\(Y\))
  • Grupos: Lambeth (tratado) e Southwark e Vauxhall (controle)
  • Períodos: antes (1849) e depois (1854)
  • Objetivo: estimar o efeito causal da água limpa sobre \(Y\)

Intuição: notação

  • \(Y\): mortalidade média por cólera de cada grupo em cada período (antes = 1849, depois = 1854)

  • \(L\) e \(SV\): mortalidade média de Lambeth e de Southwark e Vauxhall antes (1849), ou seja, o nível de cada grupo, suas características fixas

  • \(L_t\): tendência contrafactual de Lambeth, isto é, quanto a mortalidade em Lambeth teria mudado entre 1849 e 1854 se o cano não tivesse sido movido

  • \(SV_t\): tendência de Southwark e Vauxhall, isto é, quanto a mortalidade nesse grupo mudou entre 1849 e 1854

  • \(D\): efeito causal da mudança do cano sobre a mortalidade. Ele só aparece para Lambeth e só no período depois

Intuição: exemplo simplificado

Podemos identificar o efeito causal de \(D\) se simplesmente compararmos a mortalidade por cólera em Lambeth com a de Southwark e Vauxhall em 1854 (após o tratamento)?

Empresa Tempo Mortalidade média
Lambeth Depois \(Y = L + L_t + D\)
Southwark e Vauxhall Depois \(Y = SV + SV_t\)
Diferença \(D + (L - SV) + (L_t - SV_t)\)

Não! A comparação entre os grupos em 1854 mistura \(D\) com a diferença de níveis entre os grupos (\(L - SV\), o viés de seleção) e com a diferença de tendências (\(L_t - SV_t\)). E se compararmos Lambeth com ela mesma, antes e depois?

Empresa Tempo Mortalidade média
Lambeth Antes \(Y = L\)
Depois \(Y = L + L_t + D\)
Diferença (\(D_1\)) \(L_t + D\)

A diferença antes-depois elimina o nível de Lambeth (\(L\)), que não muda no tempo. Porém, sobra \(L_t\), a tendência contrafactual: quanto a mortalidade em Lambeth teria mudado entre 1849 e 1854 se o cano não tivesse sido movido. Como só observamos a soma \(L_t + D\), não conseguimos separar o efeito da tendência!

Empresa Tempo Mortalidade média
Lambeth Antes \(Y = L\)
Depois \(Y = L + \color{red}{L_t} + D\)
Diferença (\(D_1\)) \(\color{red}{L_t} + D\)

O que podemos fazer, então?

E se fizermos a diferença das diferenças (dif-em-dif)?

Quatro médias e três subtrações: (1) depois − antes em Lambeth; (2) depois − antes em Southwark e Vauxhall; (3) a diferença entre essas duas diferenças.

As duas primeiras subtrações eliminam os níveis \(L\) e \(SV\), e a terceira compara as mudanças dos dois grupos. Mas \(D_2 = D + (L_t - SV_t)\) ainda não é igual a \(D\). Qual hipótese precisamos fazer para que o estimador dif-em-dif seja igual ao efeito causal da água limpa?

Tendências paralelas: \(L_t = SV_t\), ou seja, na ausência do tratamento a mortalidade em Lambeth teria evoluído como a de Southwark e Vauxhall. Nesse caso, \(D_2 = D\). Como \(L_t\) é contrafactual, essa hipótese não pode ser testada diretamente.

Empresa Tempo Mortalidade média \(D_1\) \(D_2\)
Lambeth Antes \(Y = L\)
Depois \(Y = L + L_t + D\) \(L_t + D\) \(\color{red}{D} + (L_t - SV_t)\)
Southwark e Vauxhall Antes \(Y = SV\)
Depois \(Y = SV + SV_t\) \(SV_t\)

O resultado de Snow

Mortalidade por cólera por 10.000 domicílios (Tabela XII de Snow, modificada):

Empresa Tempo Mortalidade média \(D_1\) \(D_2\)
Lambeth Antes 62
Depois 14 −48 −97
Southwark e Vauxhall Antes 565
Depois 614 49

Supondo tendências paralelas (\(L_t = SV_t\)), mover o cano para montante evitou 97 mortes por 10.000 domicílios em Lambeth.

O estimador dif-em-dif

  • 2 grupos, tratamento (T) e controle (C), e 2 períodos, antes e depois do tratamento

  • Ideia central: usar a evolução do grupo de controle como proxy do que teria acontecido com o tratado na ausência do tratamento:

\[ \begin{aligned} \delta_{DD} &= \underbrace{(\bar{Y}^T_{depois} - \bar{Y}^T_{antes})}_{\text{mudança no tratado}} - \underbrace{(\bar{Y}^C_{depois} - \bar{Y}^C_{antes})}_{\text{mudança no controle}} = \Delta \bar{Y}^T - \Delta \bar{Y}^C \\[4pt] &= (\bar{Y}^T_{depois} - \bar{Y}^C_{depois}) - (\bar{Y}^T_{antes} - \bar{Y}^C_{antes}) \end{aligned} \]

Dif-em-dif é duas coisas:

  1. Em última instância, é sempre um cálculo numérico: 4 médias e 3 subtrações!

  2. Sob certas condições (quais?), tem interpretação causal: o efeito médio do tratamento sobre os tratados (ATT).

Hipótese de identificação

A partir daqui, \(D_i = 1\) indica que a unidade \(i\) é tratada, \(Y_{0i}\) é o resultado potencial sem tratamento e \(\kappa\) é o efeito causal.

  • Viés de seleção: grupos de tratamento e controle não são comparáveis \[ E(\color{blue}{Y_{0i}} \mid \color{red}{D_i = 1}) \neq E(\color{blue}{Y_{0i}} \mid \color{blue}{D_i = 0}) \]
  • Mas suponha que os resultados potenciais se movam sincronizados ao longo do tempo, ou seja, tenham tendências paralelas:
    \[ E(\color{blue}{\Delta Y_{0i}} \mid \color{red}{D_i = 1}) = E(\color{blue}{\Delta Y_{0i}} \mid \color{blue}{D_i = 0}) \]
  • Podemos comparar as mudanças observadas nos resultados em torno do tratamento para estimar o efeito causal médio sobre os tratados:
    \[ E(\Delta Y_i \mid \color{red}{D_i = 1}) - E(\Delta Y_i \mid \color{blue}{D_i = 0}) = \kappa \]

Tendências paralelas: visualização

Derivação formal: definições

  • Assuma que os resultados potenciais são determinados como segue:\[ \bar{Y}_{0st} = \gamma_s + \lambda_t \]

  • \(\bar{Y}_{0st}\) = resultado potencial médio no grupo \(s\) no tempo \(t\)

  • \(s = T\) (tratamento) ou \(C\) (controle)

  • \(t =\) antes ou depois do tratamento

  • \(\gamma_s =\) efeito fixo específico do grupo

  • \(\lambda_t =\) efeito específico do tempo

  • Assuma efeito causal médio constante do tratamento:\[ \color{red}{\bar{Y}_{1st}} - \color{blue}{\bar{Y}_{0st}} = \kappa \]

  • Com efeito constante, ATT = ATE = \(\kappa\). Em geral, o DD identifica o ATT.

\(\delta_{DD}\) identifica \(\kappa\)

\[ \begin{aligned} \color{blue}{\bar Y^{C}_{antes}} &= \color{blue}{\bar Y_{0,C,antes}} = \gamma_C + \lambda_{antes} \\[4pt] \color{blue}{\bar Y^{T}_{antes}} &= \color{blue}{\bar Y_{0,T,antes}} = \gamma_T + \lambda_{antes} \end{aligned} \]

\[ \begin{aligned} \color{blue}{\bar Y^{C}_{depois}} &= \color{blue}{\bar Y_{0,C,depois}} = \gamma_C + \lambda_{depois} \\[4pt] \color{red}{\bar Y^{T}_{depois}} &= \color{red}{\bar Y_{1,T,depois}} = \gamma_T + \lambda_{depois} + \kappa \end{aligned} \]


\[ \delta_{DD} = \big(\color{red}{\bar Y^{T}_{depois}} - \color{blue}{\bar Y^{T}_{antes}}\big) - \big(\color{blue}{\bar Y^{C}_{depois}} - \color{blue}{\bar Y^{C}_{antes}}\big) \]

\[ = \Big[(\color{red}{\gamma_T} + \lambda_{depois} + \kappa) - (\color{red}{\gamma_T} + \lambda_{antes})\Big] - \Big[(\color{red}{\gamma_C} + \lambda_{depois}) - (\color{red}{\gamma_C} + \lambda_{antes})\Big] \]

\[ = \kappa \]

Ao tomar diferenças ao longo do tempo, eliminamos os efeitos fixos de grupo \(\gamma_T\) e \(\gamma_C\).

\[ = \Big[(\color{red}{\gamma_T} + \color{green}{\lambda_{depois}} + \kappa) - (\color{red}{\gamma_T} + \color{green}{\lambda_{antes}})\Big] - \Big[(\color{red}{\gamma_C} + \color{green}{\lambda_{depois}}) - (\color{red}{\gamma_C} + \color{green}{\lambda_{antes}})\Big] \]

\[ = \kappa \]

Ao tomar diferenças ao longo do tempo, eliminamos os efeitos fixos de grupo \(\gamma_T\) e \(\gamma_C\).

Ao subtrair a variação do grupo de controle da variação do grupo de tratamento, eliminamos os efeitos comuns de tempo \(\lambda_{depois}\) e \(\lambda_{antes}\).

Derivação formal: conclusão

  • DD funciona se \(\color{blue}{\bar Y_{0st}} = \gamma_s + \lambda_t\)

  • Sem tratamento, grupos diferem por um efeito fixo específico \(\gamma_s\)

  • Mas os efeitos específicos do tempo \(\lambda_t\) são comuns

  • Tendências comuns ou paralelas:\[ \Delta \color{blue}{\bar Y_{0,T,t}} = \Delta \color{blue}{\bar Y_{0,C,t}} = \lambda_{depois} - \lambda_{antes} \]

  • DD não funciona se \(\color{blue}{\bar Y_{0st}} = \gamma_s + \lambda_{ts}\)

  • Sem tratamento, grupos seguem tendências de tempo diferentes

  • Então: \[ \begin{aligned} \delta_{DD} &= \kappa + \color{red}{(\lambda_{depois,T} - \lambda_{antes,T})} \\ &\quad \color{red}{- \, (\lambda_{depois,C} - \lambda_{antes,C})} \\[4pt] &= \kappa + (\Delta \color{blue}{\bar Y_{0T}} - \Delta \color{blue}{\bar Y_{0C}}) \end{aligned} \]

Importante

Tratamento e controle podem diferir em características fixas, mas devem estar sujeitos aos mesmos fatores variando no tempo.

Três formas de estimar \(\delta_{DD}\)

  1. Regressão DD padrão \[Y_{it} = \color{blue}{\beta_0} + \color{blue}{\beta_1}\, Trat_i + \color{blue}{\beta_2}\, Depois_t + \color{blue}{\delta_{DD}}\,(Trat_i \times Depois_t) + u_{it}\]
  1. Regressão DD com efeitos fixos \[Y_{it} = \color{blue}{\alpha_i} + \color{blue}{\beta_2}\, Depois_t + \color{blue}{\delta_{DD}}\,(Trat_i \times Depois_t) + u_{it}\]
  1. Regressão DD nas diferenças \[ \Delta Y_i = \color{blue}{\beta_0} + \color{blue}{\delta_{DD}}\, Trat_i + u_i \]

Com 2 grupos, 2 períodos e painel balanceado, as três formas geram a mesma estimativa \(\hat\delta_{DD}\).

Regressão padrão e as 4 médias

\[ Y_{it} = \color{blue}{\beta_0} + \color{blue}{\beta_1}\, Trat_i + \color{blue}{\beta_2}\, Depois_t + \color{blue}{\delta_{DD}}\,(Trat_i \times Depois_t) + u_{it} \]

\[ \begin{aligned} \color{blue}{\hat\beta_0} &= \color{red}{\bar Y^{C}_{antes}} \\ \color{blue}{\hat\beta_0} + \color{blue}{\hat\beta_1} &= \color{red}{\bar Y^{T}_{antes}} \\ \color{blue}{\hat\beta_0} + \color{blue}{\hat\beta_2} &= \color{red}{\bar Y^{C}_{depois}} \\ \color{blue}{\hat\beta_0} + \color{blue}{\hat\beta_1} + \color{blue}{\hat\beta_2} + \color{blue}{\hat\delta_{DD}} &= \color{red}{\bar Y^{T}_{depois}} \end{aligned} \]

\[ \color{red}{\Downarrow} \]

\[ \color{blue}{\hat\delta_{DD}} = \big(\color{red}{\bar Y^{T}_{depois}} - \color{red}{\bar Y^{T}_{antes}}\big) - \big(\color{red}{\bar Y^{C}_{depois}} - \color{red}{\bar Y^{C}_{antes}}\big) \]

O experimento do Mississippi

A Grande Depressão

O Banco Central deve apoiar bancos durante uma crise bancária?

Novembro de 1930: colapso da Caldwell and Company precipita corridas bancárias no Mississippi: depositantes em pânico sacam fundos; bancos fecham em cascata.

O Federal Reserve em 1930 — dois distritos, duas filosofias:

Distrito Sede Política durante a crise
6º Distrito Atlanta “Dinheiro fácil”: emprestava livremente a bancos em dificuldade
8º Distrito St. Louis Real Bills Doctrine: restringia o crédito em recessões

Distritos do Fed no Mississippi

Experimento Natural

A fronteira entre os dois distritos corta o Mississippi de leste a oeste:

  • traçada em 1913 por tamanho populacional, não por razões econômicas;
  • bancos nos dois lados estão no mesmo estado, mas sob políticas monetárias opostas;
  • essa fronteira cria um bom experimento natural, mas sua validade depende da hipótese de tendências paralelas.

Estratégia DD

  • Tratamento (6º Distrito): expansão de crédito (+40% em 4 semanas).
  • Controle (8º Distrito): contração de crédito (−10% no mesmo período).
  • Resultado em 1931:
    • 121 bancos abertos (6º Distrito)
    • 132 bancos abertos (8º Distrito)
  • Mas havia diferenças prévias! Não basta comparar níveis!

O cálculo DD

Seja \(Y_{dt}\) = número de bancos abertos no Distrito \(d\) no ano \(t\).

1930 (antes) 1931 (depois) \(\Delta\)
6º Distrito (Atlanta) 135 121 −14
8º Distrito (St. Louis) 165 132 −33
Diferença (6º − 8º) −30 −11 +19

Versão 1 — diferença nas mudanças (ao longo do tempo): \[\delta_{DD} = (Y_{6,1931} - Y_{6,1930}) - (Y_{8,1931} - Y_{8,1930}) = -14 - (-33) = \mathbf{19}\]

Versão 2 — mudança nas diferenças (entre distritos): \[\delta_{DD} = (Y_{6,1931} - Y_{8,1931}) - (Y_{6,1930} - Y_{8,1930}) = -11 - (-30) = \mathbf{19}\]

→ A política da Atlanta Fed salvou ~19 bancos — mais de 10% dos bancos do 6º Distrito em 1930.

Contrafactual

Tendências paralelas

→ Antes de 1931, as tendências dos dois distritos eram quase paralelas: evidência favorável à hipótese de tendências comuns.

Regressão DD

Em vez de quatro números, estimamos o DD por regressão em um painel (2 distritos × 6 anos = 12 observações):

\[Y_{dt} = \alpha + \beta \, TREAT_d + \gamma \, POST_t + \delta_{DD}(TREAT_d \times POST_t) + e_{dt}\]

Ingrediente Papel
\(TREAT_d = 1\) para o 6º Distrito Controla diferenças fixas entre os distritos
\(POST_t = 1\) a partir de 1931 Controla mudanças temporais comuns a todos
\(TREAT_d \times POST_t\) Efeito causal \(\delta_{DD}\) — a interação de interesse

Resultado estimado com 12 observações:

\[\hat{Y}_{dt} = 167 \underset{(8{,}8)}{-\, 29}\, TREAT_d \underset{(7{,}6)}{-\, 49}\, POST_t + \underset{(10{,}7)}{\mathbf{20{,}5}}\,(TREAT_d \times POST_t)\]

→ \(\hat{\delta}_{DD} \approx 21\) bancos salvos — próximo ao resultado simples de 19; marginalmente significativo (EP = 10,7).

Efeitos reais: atividade econômica

Liquidez bancária e atividade econômica real
DD: 6º vs. 8º Distritos, 1929–1933 (Tabela 5.1)
6º Distrito (Atlanta)
8º Distrito (St. Louis)
DD
1929 1933 Δ 1929 1933 Δ
Nº de atacadistas 783 641 -142 930 607 -323 181
Vendas líquidas (US$ mi) 141 60 -81 245 83 -162 81
Fonte: Angrist e Pischke (2015), Tabela 5.1.

→ O 8º Distrito perdeu mais que o dobro de atacadistas e o dobro em vendas: a política de liquidez da Atlanta Fed sustentou a atividade econômica real, não apenas os bancos.

E se o tratamento for uma variável contínua?

Muitas vezes o tratamento de interesse é contínuo:

  • aumento de salário mínimo
  • grau de exposição à poluição ambiental
  • grau de exposição a certa tecnologia (internet, 3G, etc)
  • programas sociais com cobertura parcial

Em vez de perguntar “recebeu ou não recebeu tratamento?”, a pergunta passa a ser “quanto do tratamento recebeu?”

A idade mínima para beber: variação entre estados

  • Com o fim da Lei Seca em 1933, cada estado definiu sua idade mínima para beber.

  • Em 1971, a 26ª Emenda reduziu a idade mínima para votar para 18 anos. Em seguida, muitos estados reduziram a idade mínima para beber para 18 ou 19.

  • Em 1984, foi aprovada uma lei federal que cortaria repasses para rodovias aos estados com idade mínima < 21.

  • Em 1988, todos os estados tinham idade mínima = 21.

Exemplo: Alabama reduziu a idade mínima legal para beber (MLDA, na sigla em inglês) para 19 em julho de 1975; Arkansas manteve 21 desde sempre.

→ Variação entre estados e ao longo do tempo = oportunidade de DD.

Variável de tratamento contínua

  • No contexto da idade mínima para beber não existe uma variável de tratamento comum que seja ligada e desligada de forma discreta:

    • A idade mínima varia entre 18 e 21 anos!
    • Isso gera efeitos de tratamento para o consumo legal de álcool nas idades de 18, 19 ou 20 anos.

Como fazer neste caso em que não é possível definir uma variável dummy para tratamento? Seria possível ainda utilizar uma estratégia DD?

  • Sim! Neste caso, entendemos a variável de tratamento como uma medida de exposição ou intensidade do choque de tratamento.

    • Ideia semelhante ao que discutimos no caso do instrumento Bartik!

Especificação TWFE

  • Ao invés de estimar o modelo (onde \(s\) indica estados): \(Y_{st} = \alpha + \beta \, TREAT_s + \gamma \, POST_t + \delta_{DD}(TREAT_s \times POST_t) + e_{st}\)

  • Substituímos as dummies de tratamento e após por uma variável de exposição em uma especificação TWFE: \(Y_{st} = \alpha + \delta_{rDD} \, LEGAL_{st} + \sum_{k=\text{Alaska}}^{\text{Wyoming}} \beta_k \, STATE_{ks} + \sum_{j=1971}^{1983} \gamma_j \, YEAR_{jt} + e_{st}\)

  • \(LEGAL_{st}\) mede a proporção de jovens de 18 a 20 anos autorizados a beber no estado \(s\) e no ano \(t\):

    • Em estados com idade mínima de 21 anos, ninguém de 18 a 20 anos pode beber legalmente (\(LEGAL_{st} = 0\)).
    • Em estados com idade mínima de 19 anos, aproximadamente dois terços dos jovens entre 18 e 20 anos podem beber legalmente (\(LEGAL_{st} \approx 2/3\)).
    • Em estados com idade mínima de 18 anos, todos os indivíduos de 18 a 20 anos podem beber legalmente (\(LEGAL_{st} = 1\)).
  • Como \(LEGAL_{st}\) também varia no tempo, ela também capta a variação do momento de implementação da política.

Tendências paralelas: identificação

Tratamento binário: A hipótese de tendências paralelas requer que, na ausência de tratamento, os grupos tratado e controle apresentem a mesma evolução média ao longo do tempo:

\[ E[Y_{0it}-Y_{0i,t-1}\mid D_i=1] = E[Y_{0it}-Y_{0i,t-1}\mid D_i=0] \]

Tratamento contínuo: A hipótese de tendências paralelas passa a exigir que a tendência contrafactual média não dependa da intensidade do tratamento:

\[ E[Y_{0it}-Y_{0i,t-1}\mid D_i=d] = E[Y_{0it}-Y_{0i,t-1}] \]

Interpretação: na ausência de tratamento, unidades com diferentes intensidades de tratamento seguiriam trajetórias paralelas.

Importante

Essa hipótese identifica o efeito de cada intensidade \(d\) sobre as unidades que a receberam. Para comparar intensidades, que é o que o coeficiente do TWFE faz, é preciso uma hipótese mais forte (“tendências paralelas fortes”): o efeito de cada intensidade precisa ser o mesmo para todas as unidades, e não só para as que a receberam, ou seja, não pode haver seleção com base nos ganhos.

Resultados

Idade mínima mais liberal causa ~11 mortes adicionais por 100.000 jovens, das quais ~8 em acidentes de trânsito.

Também há evidência de efeito sobre suicídios, mas menor do que o efeito sobre as mortes no trânsito.

Por que olhar para mortes por causas internas (doenças)? Faz sentido?

Mortes por causas internas funcionam como teste de falsificação: não esperamos que o acesso legal ao álcool afete essas mortes, então não devemos encontrar efeito.

A estimativa para causas internas é pequena e não significativa. Isso não prova que o efeito é zero, mas é consistente com a validade da especificação e das hipóteses de identificação.

Testes de Falsificação

Por que falsificar?

  • Teorias científicas ganham credibilidade não só por explicar o que observamos, mas por excluir explicações alternativas.

  • Popper (1959): uma teoria só é científica se puder ser testada e, potencialmente, refutada.

  • Dois tipos de falsificação:
    • mesmo resultado, grupos alternativos;
    • mesmo grupo, resultados alternativos.

Mesmo resultado, grupos alternativos

  • Ideia: a explicação alternativa também afetaria um grupo não exposto ao tratamento. Reestimamos o DD com esse grupo.
  • Exemplo: um estudo encontra que aumentos do salário mínimo reduzem o emprego de trabalhadores de baixa renda.
    • Explicação alternativa: a economia do estado piorou, e o emprego caiu para todos os trabalhadores.
    • Falsificação: reestimar o DD usando o emprego de trabalhadores de salários mais altos, que não recebem o salário mínimo.

Se o emprego desses trabalhadores também cai, o resultado original fica em dúvida.

Assim como as tendências pré-tratamento, a falsificação é evidência sugestiva de que tendências paralelas são plausíveis.

Mesmo grupo, resultados alternativos

  • Ideia: olhar para o mesmo grupo, mas para resultados que o tratamento não deveria afetar.
  • Exemplo: impostos sobre cigarro reduzem internações por doenças ligadas ao fumo, como infartos?
    • Explicação alternativa: ao mesmo tempo, os estados ampliaram o acesso ao serviço público e a cuidados preventivos.
    • Falsificação: o acesso ao serviço público também reduziria internações não ligadas ao fumo, como apendicite ou fraturas. O imposto sobre cigarro, não.

Sem efeito sobre apendicite e fraturas → reforça o efeito do imposto. Queda parecida nessas internações → o resultado principal pode ser espúrio.

Para funcionar, é preciso uma teoria alternativa crível, que faça previsões que o tratamento estudado não faz.

O teste com mortes por causas internas na idade mínima para beber é deste tipo!

Dif-em-dif no tribunal

  • Para convencer o júri “além de qualquer dúvida razoável”, a acusação precisa de três coisas:
    1. Afirmação da culpa do réu
    2. Evidências: testemunhas, sinais de arrombamento, impressões digitais
    3. Motivo crível
  • Num estudo dif-em-dif, você é a acusação no caso “O efeito causal de \(D\) sobre \(Y\)”:
    • suas estimativas DD são a afirmação de culpa, não a evidência;
    • um estudo que mostra só a estimativa, sem evidências, é um caso fraco.

Um estudo dif-em-dif precisa de evidência conclusiva, não só de uma tabela de coeficientes com asteriscos.

Cinco elementos de um estudo dif-em-dif convincente

  1. Tabelas e figuras mostrando que a política afetou quem deveria afetar.

  2. Event studies gráficos: coeficientes antes e depois do tratamento, para avaliar tendências pré-tratamento e a dinâmica do efeito.

  3. Tabelas e figuras com falsificações razoáveis.

  4. Tabelas e figuras com os resultados principais.

  5. Tabelas, figuras e narrativa sugerindo mecanismos plausíveis que expliquem os resultados.

No tribunal: os resultados principais são a afirmação; afetar o grupo de tratamento, event studies e falsificações são as evidências; os mecanismos são o motivo.

Resumo

  • Dif-em-dif é um cálculo com 4 médias e 3 subtrações: a mudança no grupo tratado menos a mudança no grupo de controle.

  • As diferenças no tempo eliminam as características fixas dos grupos; a diferença entre grupos elimina os choques de tempo comuns.

  • Interpretação causal (ATT) exige tendências paralelas: sem tratamento, os grupos teriam evoluído da mesma forma.

  • A hipótese não pode ser testada diretamente, mas pode ser avaliada com tendências pré-tratamento e testes de falsificação.

  • Na prática, estimamos o DD por regressão, o que permite muitos grupos e períodos e tratamentos contínuos.

  • Um estudo convincente vai além da estimativa: mostra bite, event studies, falsificações, resultados principais e mecanismos.