
IBM0288 - 2026.1
RDD (regression discontinuity design) é um tipo particular de desenho de pesquisa bastante popular
Foi inventado por Donald Campbell (1960), um psicólogo da educação. Essa estratégia empírica ficou dormente até cerca de 1999 quando foi “redescoberta” por Angrist, Lavy e Black.
Queremos estimar o efeito causal de um tratamento sobre um determinado resultado.
Mas não podemos simplesmente comparar dois grupos (tratados e não tratados) porque existe auto-seleção, o que gera viés de seleção.
E se a atribuição ao tratamento fosse imposta por uma regra externa? Por exemplo, uma política pública divide a amostra em grupos de tratamento e controle baseando-se em uma variável contínua e um determinado valor limite (threshold)?
Muitas políticas públicas — bolsas, subsídios, elegibilidade a programas — são concedidas com base em um critério numérico. Exemplos:
O método de regressão discontínua (RDD) formaliza esse cenário e, sob certas hipótese, identifica o efeito causal médio local (LATE).
Intuição RDD
Unidades muito próximas ao ponto de corte são quase idênticas: umas recebem o tratamento, outras não, quase por acaso.

Variável de atribuição (running variable): variável/índice contínuo que uma instituição/política/regra usa para atribuir tratamento às unidades.
Tendências: referem-se a mudanças graduais nos resultados ao longo da variável de atribuição. OBS: diferente de tendências temporais
Ponto de corte (cutoff/threshold): valor específico da variável de atribuição a partir do qual a instituição/política/regra atribui o tratamento.
Descontinuidade e/ou salto: como estimamos quebras na trajetória da variável de resultado à direita do ponto de corte, dizemos que existe descontinuidade quando isso ocorre.
Regressão: estimações típicas incluem diferença simples de médias, regressões locais por MQO ou regressões globais por MQO em torno do ponto de corte.
Arredondamento: quando notas em avaliações são contínuas e os valores divulgados são arredondados (ex: Yelp arredonda as avaliações para a meia estrela mais próxima, embora a nota subjacente seja contínua).
Eleições acirradas: Votação majoritária, com ponto de corte em 50% dos votos válidos, atribui o poder a diferentes partidos e tipos de candidatos.
Algoritmos: Preços baseados em algorítimos (ex. UBER) são definidos com base em medidas contínuas de demanda, criando limiares onde o preço “salta”.
Biologia: Idade mínima para beber legalmente (21 anos nos EUA); peso ao nascer determinando internação em UTI neonatal, idade mínima para aposentadoria.
Amostras grandes são uma característica essencial do método de regressão descontínua.
Se houver tendências significativas na variável de atribuição, é necessário ainda mais dados para estimar o salto com precisão.
Quando há muito ruído nas observações (muita variância) perto do valor de corte, a necessidade de dados aumenta para obter estimativas precisas.
É preciso ter um número suficiente de observações em torno do ponto de corte para realização de testes de hipótese.
O método favorece quem tem acesso a dados em nível de firma ou dados administrativos, pois esses bancos de dados tendem a ter muitas observações. (talvez por isso o método se popularizou apenas recentemente)
Lembre das definições sobre \(Y\), \(Y^0\) e \(Y^1\):
Os resultados potenciais têm sobrescritos: \(Y_i^1\), \(Y_i^0\).
Eles se referem aos resultados hipotéticos de um indivíduo \(i\) nos mundos com ou sem tratamento, independentemente do que realmente aconteceu.
Um desses dois resultados é observado quando o tratamento \(D_i\) é definido, de acordo com a equação: \[Y_i = D_i Y_i^1 + (1 - D_i) Y_i^0\]
Os resultados observados não têm sobrescritos (\(Y_i\)): representam o resultado de fato observado, selecionado entre os dois potenciais, no caso de um tratamento binário.
No método RDD as hipóteses de identificação são expressas em termos de \(E[Y^1]\) e \(E[Y^0]\).
Na prática, observamos mudanças em \(E[Y]\) (não confundir).
Lembre-se: passamos de resultados potenciais para resultados realizados com base na atribuição do tratamento.
Existem dois tipos RDD:
Observações:
O desenho fuzzy é um tipo de estratégia de variáveis instrumentais (IV) e requer estimadores de MQ2E.
O sharp, por outro lado, é uma forma reduzida de IV e não requer estimadores MQ2E.
Suporte comum: Não há unidades tratadas e de controle ao longo de toda a variável de atribuição, o que torna comparações diretas impossíveis.
Extrapolação: Sem suporte comum, precisamos extrapolar usando modelos — como regressões ou métodos não paramétricos — comparando unidades logo abaixo e acima do ponto de corte.
Efeitos do tratamento: Estimamos efeitos médios do tratamento, mas apenas para as pessoas no ponto de corte. Logo, com RDD estimamos o LATE!
Atribuição determinística do tratamento
No desenho Sharp, o status de tratamento é uma função determinística e descontínua de uma variável \(X_i\):
\[ D_i = \begin{cases} 1, & \text{se } X_i \geq c_0 \\ 0, & \text{se } X_i < c_0 \end{cases} \]
onde \(c_0\) é um ponto de corte conhecido.
Em outras palavras, se conhecemos o valor de \(X_i\) para uma unidade \(i\), sabemos com certeza se ela recebeu o tratamento ou não.
RDDs Sharp criam problemas de suporte comum, pois nunca haverá unidades tratadas e não tratadas ao mesmo tempo ao longo da variável de atribuição.
Isso exige extrapolação: prever resultados fora do suporte dos dados (ou seja, onde o tratamento muda de status no ponto de corte).
Por isso, as escolhas de modelagem, especialmente a forma funcional, são cruciais e representam uma hipótese crucial.
Definição do efeito do tratamento:
O parâmetro de efeito do tratamento \(\delta\) é a descontinuidade na função de expectativa condicional:
\[ \begin{aligned} \delta &= \lim_{X_i \to c_0^+} E[Y_i^1|X_i=c_0] - \lim_{X_i \to c_0^-} E[Y_i^0|X_i=c_0] \\[4pt] &= \lim_{X_i \to c_0^+} E[Y_i|X_i=c_0] - \lim_{X_i \to c_0^-} E[Y_i|X_i=c_0] \end{aligned} \]
A estimação do Sharp RDD é interpretada como um efeito causal médio local (LATE) do tratamento (\(D\)) no ponto de descontinuidade (\(c_0\)):
\[ \delta_{SRD} = E[Y_i^1 - Y_i^0 \mid X_i = c_0] \]
1. Hipóteses de independência: típicas em situações com randomização, elimina o viés de seleção.
2. Restrições sobre resultados potenciais: associadas a DD e RDD
Diferenças-em-Diferenças impõe que \(E[Y^0 | D=1]\) mude ao longo do tempo de modo restrito (tendências paralelas).
RDD impõe continuidade em \(E[Y^0]\) e \(E[Y^1]\) em torno do ponto de corte.
Suavidade das funções de expectativa condicional dos resultados potenciais:
\[E[Y_i^0 | X=c_0] \;\text{e}\; E[Y_i^1 | X=c_0]\]
são contínuas (suaves) em \(X\) no ponto \(c_0\).
Se as médias populacionais dos resultados potenciais \(E[Y^1]\) e \(E[Y^0]\) forem funções suaves de \(X\) ao redor do corte \(c_0\), então não haverá salto esperado em \(c_0\).
Isso implica que outros determinantes que poderiam gerar viés (cofounders) também evoluem suavemente em torno do ponto de corte.


Discussão: Por que a figura da esquerda difere da da direita? Para onde foram as duas linhas?
A suavidade justifica o uso de regressões para extrapolar resultados potenciais faltantes de um lado do corte para o outro
O efeito causal médio é definido no ponto de corte, mas a estimação usa dados à esquerda e à direita em torno do ponto de corte.
Lembre-se: identificação e estimação não são a mesma coisa! É a suavidade que permite dar interpretação causal às estimativas.
Estimação se refere a como vamos obter o valor do LATE
Duas maneiras de estimar o efeito do tratamento em \(X = c_0\):
Usar regressões, com \(f(X_i)\) sendo um polinômio de ordem \(p\) (altamente sensível à forma funcional).
Usar métodos não-paramétricos, como regressões lineares locais ou kernels (menos sensíveis à forma funcional escolhida).
Aviso
Não iremos cobrir (2) nesse curso pois métodos não-paramétricos não fazem parte da ementa.
Utilizamos extrapolação para estimar o efeito médio causal do tratamento no Sharp RDD. A estimativa é não-viesada sob a hipótese de suavidade.
Os modelos predizem contrafactuais esperados usando dados do lado oposto do ponto de corte.
Suponha a seguinte função linear: \[Y_i = \alpha + \beta X_i + \delta D_i + \varepsilon_i\]
Frequentemente centralizamos subtraindo \(c_0\) de \(X_i\):\[Y_i = \alpha + \beta (X_i - c_0) + \delta D_i + \varepsilon_i\]
Centralizar a variável de atribuição (idade) subtraindo 65:
\[ \begin{aligned} Y &= \beta_0 + \beta_1(\text{Idade}) + \beta_2 \text{Edu} + \varepsilon \\ &= \beta_0 + \beta_1(\text{Idade}-65) + \beta_2 \text{Edu} + \varepsilon \\ &= \beta_0 + \beta_1 \text{Idade} - \beta_1 65 + \beta_2 \text{Edu} + \varepsilon \\ &= \alpha + \beta_1 \text{Idade} + \beta_2 \text{Edu} + \varepsilon \end{aligned} \]
onde \(\alpha = \beta_0 - 65 \beta_1\). Quando centralizamos o ponto de corte passa a ser em zero.
Nota
Todos os demais coeficientes mantêm a mesma interpretação apenas o intercepto muda.
A hipótese de suavidade diz respeito ao comportamento dos resultados potenciais médios condicionais quando atravessamos a variável de atribuição e o ponto de corte:
Isso não implica linearidade: a relação pode ser suave e não linear.
Se \(E[Y_i^0|X_i]\) não apresenta salto em \(c_0\), mas é não linear, podemos obter resultados espúrios ao assumir uma forma linear incorreta.
Suponha que a relação não linear seja \(E[Y_i^0|X_i] = f(X_i)\) para alguma função suave \(f(X_i)\) (por exemplo, quadrática em \(X_i\)).
Nesse caso, estimamos:\(Y_i = f(X_i) + \delta D_i + \eta_i\)
A função \(f(X_i)\) modela os valores contrafactuais de \(Y^0\). Como estamos extrapolando, precisamos de um estimador apropriado que capture bem essa extrapolação.
Por isso, é comum empregar transformações polinomiais de ordem mais alta da variável de atribuição.

Variável de atribuição (running variable): idade (\(X_i\))
Cutoff: \(c = 21\)
Tratamento: \(D_i = 1\) se \(X_i \ge 21\), \(0\) caso contrário
Variável de resultado: mortalidade (geral, por acidentes, etc.)
\[ Y_i = \alpha + \tau D_i + f(X_i - c) + \varepsilon_i \]
O parâmetro de interesse \(\tau\) é a mudança discreta em \(Y\) no ponto de corte:\[ \tau = \lim_{x \downarrow c} E[Y_i|X_i=x] - \lim_{x \uparrow c} E[Y_i|X_i=x] \]
Grande salto em mortes por acidentes de carro no aniversário de 21 anos.
Interpretação: aumento repentino no consumo de álcool leva a mais mortes.
A relação causal é identificada localmente (ao redor do cutoff).
RD fornece um efeito causal local (LATE) em torno do limiar.
Moreira, Akhtari e Trucco investigam como a rotatividade política em eleições municipais afeta a burocracia e a qualidade dos serviços públicos no Brasil.
Foco principal: impacto da mudança de partido do prefeito sobre a provisão de educação pública municipal.
Questão central: A substituição política de burocratas após uma eleição melhora ou prejudica a qualidade dos serviços públicos?
Motivação: Em contextos onde políticos controlam nomeações, a mudança de governo pode gerar substituições generalizadas com possíveis efeitos negativos sobre continuidade, conhecimento institucional e desempenho do serviço público.





O uso de celulares e computadores durante as aulas expositivas não é permitido!